23 julho 2012

Clipping: INVASÃO NA NATUREZA PROMOVE EPIDEMIAS

O termo “serviços do ecossistema” faz referência às muitas maneiras em que a natureza apóia o empreendimento humano. Por exemplo, as florestas filtram a água que bebemos; aves e abelhas polinizam plantações.

Se deixamos de entender e cuidar do mundo natural, isso pode suscitar a falência desses sistemas e nos afetar de maneiras sobre as quais pouco sabemos. Um exemplo é um modelo de doença infecciosa em desenvolvimento que mostra que as epidemias —Aids, Ebola, a Saars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e centenas de outra— ocorridas nas últimas décadas são consequência de interferências humanas com a natureza.

Descobrimos que a doença é um problema ambiental. Sessenta por cento das doenças infecto-contagiosas emergentes que afetam os humanos têm origem em animais —mais de dois terços delas em animais silvestres.

Um esforço global está sendo feito, envolvendo veterinários, biólogos, físicos e epidemiologistas, para tentar compreender a “ecologia da doença”. Faz parte do projeto Predict, financiado pela Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Com base nos modos em que as pessoas alteram a terra —com a construção de uma nova estrada ou fazenda, por exemplo—, especialistas procuram descobrir os locais onde as próximas doenças provavelmente vão atingir os humanos e como identificá-las quando emergem, antes de se disseminarem. Estão colhendo amostras de sangue, saliva e outros de espécies de animais silvestres de alto risco, visando criar um acervo de vírus, para facilitar a identificação rápida de algum deles que possa infectar humanos. E estão estudando maneiras de gerir florestas, fauna e animais de criação para impedir doenças de deixar as florestas e se converterem na próxima pandemia.

Não é um problema apenas de saúde pública, mas também econômico. O Banco Mundial estimou que uma pandemia grave de gripe pode custar US$ 3 trilhões à economia mundial.

O problema é exacerbado pelo modo como os animais de criação vivem em países pobres, que pode intensificar e difundir doenças transmitidas por animais silvestres. Um estudo recente do Instituto Internacional de Pesquisas com Animais de Criação constatou que mais de 2 milhões de pessoas por ano morrem de doenças transmitidas aos humanos por animais.

O vírus Nipah, no sul da Ásia, e o vírus aparentado Hendra, na Austrália, são os exemplos mais urgentes de como a perturbação de um ecossistema pode provocar doenças. Os vírus se originaram de raposas-voadoras, ou morcegos comedores de frutas. Esses morcegos costumam ficar pendurados de cabeça para baixo; eles mastigam a polpa das frutas, cuspindo os sucos.

Como os morcegos evoluíram concomitantemente com o vírus, sofrem poucos efeitos dele. Mas, a partir do momento em que o vírus passa dos morcegos para espécies que não evoluíram com ele, pode ocorrer uma epidemia, como foi o caso em 1999 na zona rural da Malásia. É provável que um morcego tenha deixado um pedaço de fruta mastigada cair num chiqueiro na floresta. Os porcos se infectaram e o vírus passou para os humanos, contaminando 276 pessoas. Muitas destas sofreram problemas neurológicos permanentes e incapacitantes e 106 delas morreram. Não existe cura nem vacina. Desde então, houve 12 surtos menores no sul da Ásia.

"[...] o número de doenças emergentes quadruplicou no último meio século, em grande medida devido ao avanço humano sobre áreas silvestres, especialmente em regiões tropicais. As viagens aéreas e o tráfico de animais silvestres aumentam o potencial para surtos graves de doenças em grandes centros populacionais."

Na Austrália, onde quatro pessoas e dezenas de cavalos já morreram da Hendra, a suburbanização atraiu morcegos infectados, que antes viviam nas florestas, para pastos e quintais. Se esses vírus evoluírem de modo a serem transmitidos facilmente através do contato casual, o receio é que a doença possa se espalhar pela Ásia e o mundo.

“É apenas uma questão de tempo até chegar a cepa que conseguirá ser transmitida com eficácia entre pessoas”, diz Jonathan Epstein, veterinário da EcoHealth Alliance, organização de Nova York que estuda as causas ecológicas das doenças.

“Qualquer doença emergente nos últimos 30 anos ou 40 anos surgiu em consequência da invasão de terras silvestres por humanos e de mudanças demográficas”, afirma Peter Daszak, ecologista de doenças e presidente da EcoHealth.

As doenças infecciosas emergentes ou são tipos novos de patógenos ou tipos antigos que sofreram mutações, como ocorre todos os anos com o vírus da gripe. A Aids passou de chimpanzés para os humanos na década de 1920, quando caçadores na África comeram os animais.

As doenças sempre saíram das florestas e da fauna e chegaram às populações humanas: a peste e a malária são dois exemplos disso. Mas, segundo especialistas, o número de doenças emergentes quadruplicou no último meio século, em grande medida devido ao avanço humano sobre áreas silvestres, especialmente em regiões tropicais. As viagens aéreas e o tráfico de animais silvestres aumentam o potencial para surtos graves de doenças em grandes centros populacionais.

Para os especialistas, a chave para a prevenção da próxima pandemia está na compreensão do que eles chamam dos “efeitos protetores” da natureza intacta. Um estudo mostrou que, na Amazônia, um aumento de 4% no desmatamento resultou no aumento de quase 50% na incidência da malária, porque os mosquitos transmissores da doença se multiplicam em áreas recentemente desmatadas.

Especialistas em saúde pública começaram a incluir a ecologia em seus modelos. A Austrália acaba de anunciar um esforço de muitos milhões de dólares para estudar a ecologia do vírus Hendra e dos morcegos.

Não é apenas a invasão de paisagens tropicais intactas que provoca doenças. O vírus do Nilo Ocidental chegou aos Estados Unidos vindo da África, mas se disseminou na América porque um de seus hospedeiros favoritos é o tordo americano, que vive bem em gramados e campos agrícolas. E os mosquitos, que transmitem a doença, são especialmente atraídos pelos tordos.

“Quando fazemos coisas que reduzem a biodiversidade de um ecossistema —cortamos a floresta ou substituímos habitats por campos agrícolas—, tendemos a eliminar espécies que exercem papéis protetores”, diz Richard Ostfeld, pesquisador da doença de Lyme. Para os especialistas, a melhor maneira de prevenir surtos entre humanos é através da Iniciativa Uma Saúde —um programa global que defende a ideia de que a saúde de humanos está estreitamente interligada com a dos animais e da ecologia, todas precisam ser geridas de modo holístico.

“Não se trata de manter as florestas intactas e livres de humanos”, diz Simon Anthony, virologista molecular na EcoHealth. “Se você puder entender o que é que motiva o surgimento de uma doença, pode aprender a modificar os ambientes de maneira sustentável.”

O problema é enorme e complexo. Estima-se que apenas 1% dos vírus silvestres seja conhecido. Outro fator importante é a imunologia da fauna silvestre, uma ciência ainda emergente.

O destino da próxima pandemia pode depender do trabalho da Predict. A EcoHealth e suas parceiras estão estudando os vírus tropicais transmitidos por animais silvestres para construir um acervo de vírus. Pesquisadores da Predict estão observando a interface em que sabidamente existem vírus mortais e onde populações humanas estão derrubando a floresta.

A EcoHealth também revista bagagens em aeroportos, em busca de animais silvestres importados que possam ser transmissores de vírus mortais. E seu programa PetWatch avisa consumidores sobre os riscos de adotar animais de estimação exóticos vindos de locais de risco em florestas.

Por Jim Robbins

Disponível em: <http://www.opovo.com.br/app/opovo/thenewyorktimes/2012/07/23/noticiasnewyorktimes,2882950/invasao-na-natureza-promove-epidemias.shtml>. Acesso em 23 jul. 21012